(escrito em 30/05/2007)
As pessoas geralmente têm medo das palavras. Eu gosto da escrita. A história também. Muitas passarão e nem perceberão esse texto. E é bom. São pensamentos soltos nos ar. Não precisam ser lidos para fazerem algum sentido.
Hoje muitas coisas me fizeram parar pra pensar.
Talvez o tempo passe muito rápido. A ponto de não termos tempo pra envelhecer. Muitas vezes eu penso que envelhece quem quer. Mas hoje algo mudou isso. É inevitável o crescimento, o amadurecimento, e acima de tudo, a mudança no modo de pensar e de sentir as coisas. Fernando Pessoa mesmo afirmou "Continuamente sinto que fui outro, que senti outro, que pensei outro. Aquilo que assisto é um espetáculo com outro cenário. E aquilo que assisto sou eu." - É a lei da contínua evolução. Não devo dizer que nego o passado por ter apagado fotos, posso afirmar que certas coisas marcaram, me fizeram, e não precisam estar presentes tomando espaços de novas. É bom se desvencilhar. É difícil. É ótimo.
Entrando no elevador hoje, me deparei com uma criança. Um menino. Devia ter uns cinco anos (por estimativa baseada simplesmente na imagem - e em nada). O menino não olhava pra cima. Eu não disse nada. Simplesmente pensei em como não me socializei de primeira com uma criança. Estaria envelhecendo? Mas pessoas mais velhas falam com crianças. Estaria então não me despregando da infância? O menino abriu a porta e entrou envergonhado por uma fresta. Eu lembro de quando sentia vergonha de meninos mais velhos. Eu lembro quando evitava entrar no elevador por ter um menino desconhecido. Seria prova do crescimento? Dentro do elevador eu o observava. E ele apenas olhava para baixo. Com um sorriso sapeca. Foi diferente. Parece ser inerente ao ser humano entrar no elevador e comentar sobre o tempo. Tempo digo de clima. Com a correria de hoje em dia... é espantoso perceber como o tempo se torna centro das atenções e de total importância em um cubículo daqueles. Nos dias de hoje as pessoas correm tanto, sentem pouco, e esquecem da delícia que é olhar pra cima. Hoje em dia as pessoas não lembram das pequenas delícias da vida (não digo todas... mas a maioria). Portanto... o tempo, por um instante, se torna a coisa mais importante. Como se mudasse as vidas. Convivo com esse ambiente há doze anos. E nunca vi (ou raríssimas vezes) alguma outra coisa ser tema do trajeto. Se chove, é porque choveu. Se está sol... está sol.
Penso um dia chegar no elevador e puxar um assunto completamente nada a ver. Preciso sentir o ambiente. Um dia me disseram que no elevador, todos só sabem olhar pra frente com cara de paisagem. Dessa vez foi diferente. O menino olhava pra baixo. E eu olhava pra ele.
Penso que a vida é linda. Discuto dobre imortalidade ligada à ciência na aula de inglês. E nada concluo. O conhecimento não necessariamente representa o que se sabe. Acredito que há outras formas de conhecimento. Há aquela uma, que quase ninguém percebe, que age ligeiramente, que passa despercebida, que é o de sentir.
Por exemplo... eu gosto de chocolate. Mas não necessariamente gosto de chocolate. Fernando Pessoa me pergunta qual a metafísica de que existe em comer chocolate. Afirma que não há. Me chama de suja. Mas há certo conceito. Eu gosto, você gosta, mas não necessariamente gostamos. Eu já nem sei, nesse mundo louco, globalizado e sem sentido, qual o significado real dos verbos. Eu gosto. Mas como um e me sinto satisfeita por um mês. Uma amiga come cinco, e sente vontade de mais cinco após sete segundos. Qual a conclusão? Que gostamos diferente. E não necessariamente ela gosta mais. Não há, nessa conclusão, a medida da força da palavra. É imensurável, na verdade, a quantidade do sentido de sentir (ficou claro?).
Outra coisa que reparei sobre essa história de conhecimento. Que o pensamente é mais forte do que eu pensava, e muito mais forte do que me diziam. Percebi que às vezes sabemos coisas, e quando pensamos que não sabemos, chegamos a ponto de não saber. Percebi que quando sabemos, e forçamos, achando que sabemos mesmo, sabemos mais. Isso deve valer pra tudo. Mas não coloquei em prática. Então nada posso afirmar. Nada mesmo. È só uma elocubração (palavra de enriquecer dissertações) a respeito da força do pensamento.
Cheguei na porta do escritório e li que devemos sorrir muito. O tempo todo. Como bobos. Porque vão nos amar mais sorrindo. Vão nos amar mais se sorrirmos? Eu gosto de sorrisos. Eu gosto de risadas. Mas se conhecer alguém que sorri o tempo todo... 24 horas por dia... vou duvidar de sua verdade. Chegarei a perguntar se tudo é tão colorido para não conseguir manter a calma e ficar séria por um instante. É bom sorrir... Mas tudo valhe a pena quando é sincero. Como o verbo amar. Acho que não cheguei a comprovar a diferença de tonalidade de um "eu te amo" sincero, de um falso. Quer dizer, já. Mas hoje é tudo tão como é (deixo no ar), que não se sabe o que dizem, do que fingem dizer. Se a pessoa sorri, sorrindo por dentro, com os olhos brilhantes, ou se sorri sem significado nenhum. Eu gosto de pessoas que distribuem sorrisos o tempo todo com significado.
Minha garganta dói. Meu joelho teima em falhar. E eu sorrio. Agradecendo aos céus (aos meus protetores) não ter nada complicado ou sem cura.
Hoje me pressionaram. Não tenho as respostas. Não consigo certas coisas. Não engano meus limites. E gosto de sorrir. Eu escuto. Eu escuto músicas, que se tornam diferentes, com detalhes antes nem percebidos, como se fossem novas, mesmo sendo velhas.
Deve ser esse o sentido do espírito. Pensei hoje se as pessoas passam sempre pelo mesmo amadurecimento, e se tornam todas iguais. Reparei que é tudo uma questão de espírito. E do meio. O meio em que vivemos nos altera e nos influencia em tudo. E tudo depende de nós para deixar nossos espíritos cada vez mais jovens. Aquela coisa de ver um velhinho sorrir como uma criança. Uma velhinha dançar até cansar. E se ver pensando se está envelhecendo a ponto de não entender a questão do elevador. Não é matemática... e precisa-se de pensar. Pensar daquele jeito oblíquo e dissimulado. Pensar como se estivesse vendo tudo pela primeira vez. Não ter medo de perguntar e confessar que tem medo, que não sabe, que quer aprender. Confessar que perguntar é muito, mas muito mais importante que responder. Aceitar que quem responde está sempre se contentando, sempre se acomodando. E quem pergunta está sempre descobrindo, se desvendando, arriscando, progredindo. Aceitar o medo do desconhecido. E não corar ao assumir algo que não conheça ou que te faça tremer. Não deixar o frio na barriga morrer. Não exigir demais, não se contentar com pouco. Não esitar ao dizer que não sabe. Não evitar algo por medo do perigo. Evitar uma vez na vida se arriscar por emoção. Ter medo de sentir o coração vibrar.
Não deixe sua criança morrer. É sempre tempo...
Eu gosto. Ainda me delicio ao rolar na grama, subir em árvore, me lambuzar de manga. Me satisfaço ao pular na água, ao sentir frio e calor, ao pegar gripe depois de me molhar na chuva, ao assistir filme de terror e ter medo do escuro. Sorrio por nada ao fitar o céu, não ter medo do tempo por um segundo (mesmo que depois tenha medo do tempo que passou), deitar no escuro e imaginar que tudo pode melhorar, esquecer que está tudo mudando. Não pensar e só sentir. Sentir como se estivesse vendo tudo pela primeira vez. Deixar de ser criança... e perceber que essa nunca morrerá.
Não deixá-la morrer. E cuidar dela... com a maturidade de que aprende, e se torna um pouquinho mais adulto e mais criança a cada minuto passado...
"Dêem-me de beber, que não tenho sede!"
"Fui, como ervas, e não me arrancaram."
"Já disse: sou lúcido.
Nada de estéticas com o coração: sou lúcido.
Merda! Sou lúcido."
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sábado, 25 de outubro de 2008
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