
Sentada no balanço de seu jardim, Sara ouvia vozes da cidade por todos os cantos. Velhinhas passavam voltando da feira, saudando o passado. Meninas rindo dos namoricos. Meninos falando das meninas. Garotos menores jogando bola. Garotas menores bricando de boneca ou brigando com os garotos menores que jogavam bola.
Havia sons de todo tipo passando por ali... Era ping-pong, pega-pega, rolemão. Era risos e choros e beijos e gritos. Era som de todo tipo.
Mas em um momento de sua audição, em outro mundo no seu quintal, algo lhe chamou a atenção.
Era uma voz fina, irritantemente áspera, que falava mal. Estranhou. O tom de revolta da voz se aliava ao som de fofoca e se fazia, aos ouvidos de Sara, algo irritante.
Concentrou-se para ouvir...
"Como a Joana está namorando o Alberto? E como pode o Marcos ter assinado tal contrato? Vocês estão me ouvindo?! Está tudo errado. A Márcia largou o emprego pra ficar em casa cuidando dos filhos. E o João que traiu a mulher e mesmo assim foi perdoado? Eu não posso acreditar numa coisa dessas. Como o prefeito proibiu tal e tal coisa? E vocês viram que o José faliu?? E o Carlos que se revelou alcoólatra? Como a Gabriela apanha do marido e não faz nada??"
Sara, assustada, resolveu descobrir de onde vinha aquela voz que tanto cuidava da vida dos outros.
Percebeu que o som vinha do parapeito de sua janela que dava para o jardim. Foi até lá.
Não havia ninguém. "Quem está a falar tanto?"
_Eu!
Olhou para baixo e viu uma aleluia. "Não pode ser, você é uma aleluia"
_E só por isso não posso falar? Está tudo errado... por acaso você viu que a Joana está namorando o Alberto? E viu que o Marcos assinou um contrato de venda da casa? E...
Antes que continuasse, Sara resolveu interromper.
_Sim, ouvi tudo. Mas não entendo porque fala tanto da vida alheia. Já temos uma vida tão repleta, mal conseguimos cuidar da nossa, pra quê tanta fofoca?
_Pra quê?? Você não ouviu?? A Joana está namorando o Alberto! E o Marcos assinou um contrato de venda da casa dele... E...
_Entendi senhora aleluia - disse Sara agitando a saia e se aproximando um pouco mais da janela - Mas a questão é que não me importa quem a Joana namora, nem o que o Marcos fez com a casa dele. Isso não diz respeito à mim, entende? Só interessa pra eles. A senhora não devia se importar tanto com a vida alheia. Eles nem te conhecem...
_Como não?? Já passei por lá...
_Senhora aleluia, a senhora é uma aleluia! Nem sei eu como posso te ouvir!
_Você não está entendendo, menina estranha. A Joana está namorando o Alberto. E o Marcos...
_Está bem aleluia! Eu já entendi!! - Disse Sara tentando manter a paciência - Mas a vida é muito mais que isso. A vida vai muito além de pensar na vida dos outros. Inclusive, gastar o tempo pensando na vida dos outros é deixar de viver e perder o seu. Olhe para o meu jardim: você poderia estar curtindo o mato e as flores e as madeiras. Se enamorando por cupins como você. Qual a graça de perder o valioso pouco tempo que temos xeretando a vida alheia? Há tanto Sol, natureza e pessoas interessantes, tantas novidades e momentos que podem ser aproveitados... Tanto conhecimento que podemos evitar desperdiçar. Tantos seres vivos que podemos conhecer... E tantos lugares e sentimentos que podemos desvendar.
Pra quê gastar o tempo com a fofoca? O que os outros têm de tão importante para se tornarem prioridade em sua vida?
Quando foi responder... A aleluia caiu, dura, pra trás.
Sara se surpreendeu. Cutucou-a. Chamou por ela. E nada.
Estava morta a fofoqueira.
Então, ainda aflita pela resposta não dada, Sara se lembrou que aleluias só vivem 24 horas. (Aleluia!)
E pensou como seria sua vida toda enxuta em 24 horas. Com certeza não se importaria com isso... A vida alheia seria parte da paisagem estagnada.
A sua vida curta seria uma tentativa de provar o lado bom do mundo em apenas um dia.
Um dia.
** Moral da história: Carpe Diem. Mas Carpe o SEU Diem.
Obrigada.
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