domingo, 20 de dezembro de 2009

Um gole primeiro e já se perdeu no tempo e espaço.
Quer esquecer o que não lembra, pela possibilidade apenas e pelo medo da memória cortante.
Mas lembra que sente, e sente muito e sente a alma.
Sentiu a mão, sentiu a pele, sentiu tudo unicamente.
Tudo demasiadamente forte.
O Sol nasce com o susto.
Deixa estar que faz parte da loucura viva...
Da vida vivida
Da vida em alma
Da vida em cada poro...
Deixa estar...

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Pisa em falso e a folha cai.
Não gosta de pessoas demasiadamente inteligentes que a provocam e são tão parecidas com ela na loucura quanto poderia duvidar.
Gosta de vestido rodado e da excentricidade.
Quer ser excêntrica com ela própria e debulhar-se diante de tantas loucuras intelectuais.
Gosta de jornal, de papel de jornal, de letra de jornal.
Gosta de semente, de café, de cadeira.
Cansa de tudo.
Quer companhia, quer-se sozinha.
Quer tango e quer samba.
Quer paz, quer sufoco.
Quer carinho, quer o caro, quer a cama.

domingo, 29 de novembro de 2009

Problema é esse de querer poetisar tudo sempre, transformar tudo em arte.
Mal sabe o que sente, não sabe o que sente, mas quer fazer arte.
Quer tirar da veia, em palavras, o que não sabe e não sabe explicar.
Colocar em palavras, o que, então, pois?
Quer sentir intensamente o que pulsa as veias que geram a energia. Energia essa pulsante que se exprime em palavras não entendidas e na arte tão abstrata.
E ainda quer que a entendam...
Entender o que?
Essa confusão de sentidos e palavras que se misturam e já não se sabe mais o que fala ou o que sente. Não se sabe mais se fala o que sente, ou se sente o que fala... só para ter o gosto de dizer que sente o que uma linda palavra pode tentar fazer entender.
Procura nos amores errados o amor que não quer e não acha.
Que sonha e não quer.
Não tem filosofias, tem sentidos. E estes, por ora, não andam sentido nada que se compreenda.
Ou nada de nada... seja lá o que isso for.

quinta-feira, 11 de junho de 2009

Fundo, muito fundo.
Fundo tanto, muito mundo.
Fundo muito, fundo mundo.
Saúde sangra,
Cai no poço, poço fundo.
Roda mundo, roda fundo.
Apatia, por um fio.
Força fraca, fundo fundo.
Baque fundo,
De pressão.
Pressa funda,
Corre fundo,
Força funda, fraca, para um respiro sem dor.

sexta-feira, 8 de maio de 2009

Sangue, sangue, sangue.
Melodia corre... corre o sangue.
Corre o fogo na mata, corre o sangue do mato.
Corre o uivo, soa.
Uiva e uiva e uiva.
Sangue da uva.

Dançando para a lua, o cheiro do sangue ainda cheira a memória.
Memória da veia.
A veia da vida.
Sangra e sonha.
Sonha e muito sangra.

Cicatriza?!
Cresce, se puder. Amadureça.
Cicatrize. Logo...
Corte dói mais que sangra.

Sangra.

quinta-feira, 9 de abril de 2009

Não se aguenta poesia todo dia, todo o dia.
Não aguenta tinta o interno. Pessoa (é) quem tem razão.

*

Acordo e já é outro tempo.
Olho e venta frio, venta sonho, venta riso.
Tanto amor por calor, e no frio o sangue ferve.
O suor passa por debaixo da coberta,
O Sol ilumina o céu todo invernoso.

Êta coisa boa essa de sentir o calor no frio.
Lembrar e o coração bater...
Mas lembrar ainda e o coração bater.
No frio...
É frio e lembra. É frio e quente. É quente...
Do bafo, do abraço, do beijo, do amor, do gosto.
Tem de ser no frio, sempre.
Pode ter Sol,
Mas venta frio, venta sonho, venta riso...
Venta dor, venta medo, venta amor.

No frio, do Sol, venta amor.
Venta dor.

Venta amor.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

~[ Mama ]~

Mama mia
Mãe nossa
Mama que sangra
O leite que pinta
Os lírios de branco

Mãe que chora
Olhos de espelho
Que sangra a água
Dos rios inteiros

Mama que sua
Sangra escuro
Pinta a tez
De memórias intensas

Mãe que fala, que cospe
A língua da origem
Semente do berço
Natureza de todo o mundo
Expressa dialetos mil
De um povo viril e febril

Mama que ouve
Sangra os tímpanos
O tambor
A batida, o ritmo
Sangra energia e força
Que pisa a terra sênil
Onde nasce toda semente original

Mãe que olha
De frente ao canto
Fita, encara
Sangra a pupila
Os filhotes da cor e do Sol
Da força por toda
Que cria e suplica
Piedade ao pranto

Mama que sorri
E canta e dança
Diante da dor e guerra
Da alegria certa
Sorri de força
De alma exposta à vida como é
De alma exposta à dança pelo pé

Mãe que come
Ouve e luta
Como Sol e chuva
Que dá a tudo berço
Segura e concepciona
Afugenta e apaixona

Mama África
Sangue todo.
Todo.

~[ ZzzZZz ]~

Insônia insossa,
Não me deixa parar de escrever
Deixe-me descansar a caneta
Vá embora com as palavras
Tantos riscos no papel.
E o sono cadê?

Insônia insossa,
Por favor, peço com carinho.
E sou difícil de tão meiga assim ser
Mas preciso acordar cedo
E pra acordar, antes preciso dormir.

Insônia insossa,
A sua companhia não é ruim
Mas muito ativa é você
O sono é mais calmo
Acolhe-me em seus braços
Você não, você me quer jogar no mundo!

Insônia insossa,
Você me quer criando histórias
Imaginando coisas sem parar
Pensando no futuro
Ora, não há amanhã sem terminar o hoje
E pra terminar bem o hoje
Só dormindo, com o sono.

Insônia insossa,
Ora, minhas mãos te seguem, tolas.
Por favor, doem e cansam, não dormem.
Precisam do sono tanto quanto eu e você
Meu cachos querem descansar, de toda enrolação
A noite chegou há tempos, já!

Insônia insossa,
Agora é sério.
Já estou na sexta estrofe e nada do sono
Vou apelar para a ignorância
Vou dormir de qualquer jeito. E se não quiser sair daqui, tudo bem!
Que durma comigo, então, pois.

E foi assim que consegui, pela primeira vez, dormir sem o sono. E fazer a insônia, toda acordada, sem sono, dormir também...
Estou cansada.
Não aguento mais escrever com as mesmas coisas pulsando na cabeça. Toda rotina me cansa a alma.
Quero algo novo, todo. Que pulse sozinho;
Ou poder falar de qualquer coisa que eu queira.
Xampú.
Rosa que deixa cheirosa.
Rebeldia pouca.
Poupe-me!
Quero meus cachos bem.

~[ Tantas juntas... ]~

O joelho pobre
A cicatriz fulmegante
O sangue vira, flagra, vira.
Do olho a energia enerva. Enerva a nuvem.
Enerva a erva.
Minerva.
Minh'erva.
Quem sabe o poder do homem?
A fúria da pele?
O compasso que passa o passo na cor.
O pincel que pinta e dança
Gira o girassol
Assobia o sabiá que não sabia cantar
Flaminga o flamenco
E o sangue pulsa
E sangra.
Ainda.
Bem.

**

Quem é o dono do cacho?
Aquele não de uva, que é.
O vinho do moreno
A mecha ressalta
Branca no preto.
Me diz!
Quem?

**

A pena azul balança
É o vento, a fresta fresca
A fresca festa
Noite briha
Sozinha.
Você não está
Mas brilha lá dentro
Onde o vento não alcança
A pena balança
A festa se cansa
E a noite não consegue chegar



Nasce o Sol.

~[ Há tempos. ]~

Vai dizer...
Quantos dedos já falaram por você
Quantos olhos já sentiram por você
Quantas bocas já pediram o seu mal
De quantas vozes desejou sentir o sal

Vai dizer...
Quantos braços impediram o seu choro
Tudo que deseja agora é amor e sono
Desejo de palavras arrancadas por dizer

Vai dizer...
Quantas folhas não caíram no outono
Quantos poros já explodiram de calor
Quantos dentes já gritaram por um beijo
O que se quer agora é sono e desejo

Vai saber...
Quantas flores já brotaram sem estação
Quantos guias se perderam no caminho
Solidão só é com certo sentido
E o sentido agora é estar com você
Vai saber...

Ter não se conjuga quando há dois.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

O tempo, a ausência, o tempo e a ausência, são necessários para toda presença.
Sentido lindo!
Bom é saber que as árvores crescidas na dificuldade possuem raízes maiores.
Que quanto mais fundas as raízes, mais fortes.
Nada, nada estraga.
É tão forte que exagera de sinceridade.
Pura verdade é!
Que a ausência cria e faz nascer também.
Que os galhos se multiplicam com o tempo, e o caule engrossa.
Que a sabedoria vem...
Que as folhas caem no outono, e o outono passa.
Que tudo branco fica no inverno, frio doído, e o inverno passa.
Que tudo verde fica no verão, calor doído, e o verão também passa quando o suor se exagera de ser.
Que as flores nascem e brotam na primavera, tudo se colore, e a primavera também passa.
E que tudo se colore na primavera, porque antes houve o inverno e o outono para dar lugar a novos frutos e novas flores.
A vida é completa e linda por si.
Não há o que doer... tudo, tudo é cíclico e fértil.

Como ouvi um dia muito bem e não me esqueço: É preciso "Ser jovem enquanto velha. Velha enquanto jovem."
No momento, é mais sábio quanto pode!

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

O amor tão louco, pouco.
Em certo, pode improdutivar.
Invento?
Quem sabe.

O sangue só tem de ferver.

Que beleza os cabelos brancos!
Ásperos, reluzentes.
Todos arco-íris.
A íris do espelho da vida vivida.
Como disse uma vez Erasmo:
O encontro da infância na velhice.

Que beleza a sede da pele!
A beleza da imemória,
A admiração do simples, da vida.
Juventude!
E falas fraquinhas.

Que beleza os cabelos brancos!
A língua turva,
Os olhos curvos, e vividos.
A mente sã, infantil e velha.
O velho novo.
O novo no velho.
Todos os fios brancos
A pele fraca
O olhar liso e terno
Toda a sabedoria
Os joelhos fracos
A vida e a sabedoria em seus fios brancos.
Que beleza!

~[ Ode ao meu pai ]~




Na cama, a pruma, o braço, o abraço.
A taça, o sangue, a fala, o som.
Apenas uma coisa permanece igual no mundo, disse-me ele uma noite.
Desde que comecei a compreender o mundo
Tudo sempre muda.
A única coisa que sempre continuou foi o céu.
O céu não muda.
Não muda.
Para todos gregos, troianos e índios,
O céu é o mesmo.
Sempre o mesmo.
_Mesmo poluído? - outra voz.
_O céu é o mesmo. - insiste.


Tem coisas que ainda fazem sentido.

~[ Marte. ]~

Como pode, de repente
Em tão calma e serena,
O ódio vir às mãos como enxurrada de sangue,
Como espuma de aço,
Como grãos de loucura e desgosto.
Tão raro o gosto, áspero e ríspido
Da fúria, do incontrole.
Fato ser impróprio o despoder da própria calma.
Diante de um golpe de eletricidade
Um choque à espinha
Tão raro que tal momento
Por ser raro e por si só,
Arde a língua,
Salta o cílio,
Queima a alma.
E que um minuto dura ano pelo fogo e nada mais.

*

Os ovos das libélulas
Lascam a prata
Arranham a tinta
Como em seus sonhos
De serem na água.
O filhos mal-queridos
Lascam o ventre
Arranham a pele
Como em seus sonhos
De serem na juventude
Mais de um berço antecipado.
Bichos!

~[ Dois ]~

Nem sempre o longe é paz,
O sonho vira,
O peito faz.

Nem sempre se conhece o perto,
Se desmazela o feto,
Nasce homem o neto.

Nem sempre o joelho dança,
O quadril balança,
Sobrevive a lembrança.

Nem sempre.

*

Ela queria entender que lembranças lhe traziam ele. Quais desejos.
Queria pôr a prova tudo o que aprendera. Queria sentir que vivia.
Bem lembrava...
Importante é sempre a companhia. Não?
Muitas vezes o caminho começa pela pele.
Diante de um olhar, um cenário vira história.
Um cabelo. Um cavanhaque. Um latino.
Um desejo de talvez tocar algo que nunca mais tarde será revelado.
Nunca nada revelado. Tudo posto. Pronto.
O olhar de lado, moreno.
O pensamento arrelio que mais gosta é de fugir.
Sozinho, que quer dizer?
Sozinho todo pouco, quer dizer o quê?
A curiosidade de mão com o medo.
Concomitante.
O berço.
A porta.
Que quer?
O metal que arde, não?
Que medo daquele olhar.
Deve ser o gosto pelo medo da consequência.
De tal olhar, vai saber.

~[ Língua ]~

Bocas vermelhas gritam na cidade
Grandes bocas, vermelhas, gritam na cidade cinza
Talvez gritem mais alto por serem vermelhas
Talvez soem mais alto por ser cinza a cidade
São poucas as bocas e muitas as cidades
São muitas as bocas em poucas cidades
As bocas gritam e a cidade é muda
As bocas gritam e a cidade é surda
A boca chora na cidade suja
Ninguém ouve.