Ir ao shopping. Era o objetivo dela e de seu pai.
O pai guiando, e ela ao lado se desembrulhando internamente ao som que tocava.
Olhava as ruas como bailarinas da música. Elas dançavam junto com o pulso dela.
Um semáforo chega. Como que em um impulso e um breque, volta à realidade um minuto.
A menina de rua se aproxima do vidro...
Aquela sensação de impotência social posta entra no ar...
"Tio, tem uma moeda?"
Ele olha ao redor no carro... nada redondo brilhava.
"Não... não tenho." - Responde com cara de piedade.
A menina então olha para ela em abalo ao banco do lado e diz:
"Moça, tem um batom?"
Ela responde como que em um impulso e um semi-sorriso devido à pergunta inesperada e diferente de todas as outras:
"Não... não tenho batom."
O pai a fitou como que se a estivesse estudando.
Ela tinha. Ela tinha o preferido na bolsa. E por um momento, disse não. Ela queria dar... queria ajudar. Era só um batom. Sabia o que dizer, sabia o que fazer, e a única coisa que disse foi um não.
Aquilo foi um abalo sísmico dentro dela. Segurou o choro, mas viu tudo embaçado por um tempo.
Segurou o nó na garganta, mas quanto mais segurava, mais doía.
Se revoltou.
Se revoltou com tudo e com todos, que pela vida inteira dela, sempre a fizeram, por osmose ou não, dizer um não para tudo que pedia um sim.
Lembrou de quando quis comprar um lanche para um menino, e olharam estranho. Entregou o dinheiro e o observou correr. Ele correu.
Lembrou de quando ficou com medo de como ajudar um cego a atravessar a rua, e nada fez. Era muito nova, e nada fez.
Se sentiu suja, se odiou.
Odiou todo mundo.
Entrou no shopping, e aquilo brilhava tanto que ficou tonta. Era tudo tão concreto, tão frio, tanto brilho. Não era grama, não era natureza.
Tentou se locomover naquela selva estranha.
Não engoliu aquilo mais...
Desde então, não tirou mais o batom da bolsa para caso um dia encontrasse a menina.
O batom não saiu da bolsa, por mais que pedisse ser dado a quem o amaria mais que ela.
*
Refletiu sobre aquilo tudo, e percebeu que todos só aprenderam a dizer não, como se o "não" os livrasse de qualquer perigo. Desde pequeno, você não aprende o que deve fazer, mas o que "não" deve fazer.
"Não ande sozinho"
"Não fale com estranhos"
"Não dê dinheiro"
"Não alimente o tráfico"
"Não ande no escuro"
"Não leia com pouca luz"
"Não tome banho assim..."
"Não desarrume seu quarto, e sua vida."
"Não sente desse jeito."
"Não sente assim."
"Não coma com os cotovelos na mesa."
"Coma com postura."
"Não fale bobagens."
"Não fale palavrões."
"Não fale."
"Não pense assim."
"Não pense."
"Não deixa a luz acesa."
"Não deixe o som ligado."
...
E, por um último momento...
"Não seja tão você!"
Essa é a frase do mundo. Não seja sua natureza.
Viva pelo que os outros fazem, dizem as televisões.
Faça pose de modelo, faça cara de intelectual, ignore a pobreza, não faça desmerecidos merecerem.
Chega em um momento no qual ou você vira um boneco, ou se rebela/revela.
Aconteceu isso com ela. Cansou do impulso do não.
Cansou de pensarem por ela, agirem por ela, serem por ela.
Não queria um shopping, queria poder ensinar a menina além do batom.
Queria poder ajudar todos eles.
Tentou esquecer um pouco, mas o batom pesava mais que uma tonelada.
Quase se curvou, mas percebeu que não resolveria o problema.
Quis chorar, desabafar, gritar. Mas não resolveria.
O turbilhão só mudaria do grito para dentro. Do choro de dentro.
Não gostou de andar no carro, queria uma bicicleta.
Queria a vida passeando por entre o vento.
Queria o mundo bom.
Queria conversar com alguém que a entenderia, não queria ouvir as amigas contando todas as antigas novidades naquele momento, queria desabafar.
Queria ouvir alguém que pensasse como ela, e a suspenderia de uma forma companheira.
Queria as pessoas melhores. Queria ser melhor.
Não aquelas que não dão moedas. Mas aquelas que socializam o conhecimento, a amizade, e o amor.
Faça-se melhor, como ela tenta sempre ser...
Não esqueça do batom em sua bolsa!!
*

Um comentário:
Um vez um interiorano se acostumou à cidade grande. Virou um legítimo paulistano individualista e cego para o que realmente interessa: o outro! Ele viu uma pessoa infartando á cerca de 2 metros; quase 15 segundos se passaram sem que ninguém fizesse nada; nem ele! Pensou: há algo errado com os paulistanos... mas concluiu ao descer do vagão: há algo errado comigo mesmo!
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